quarta-feira, 17 de abril de 2013

THEODOR KOCH-GRUNBERG E O MONTE RORAIMA



                          THEODOR KOCH- GRUNBEG E SEU FILME GRAVADO EM 1911

                                     http://www.youtube.com/watch?v=GhIWMgHWk5Y










TEXTO SOBRE A VIDA E A OBRA DE THEODOR KOCH- GRUNBEG

Theodor Koch-Grünberg (1872-1924), nascido na cidade de Grünberg, na região de Oberhessen, era filho e neto de teólogos. Através de leitura de revistas de viagens e de aventuras, tais como o Globus, interessou-se desde cedo por assuntos relacionados com índios; já em 1881 lera a narração da segunda viagem de Crevaux. Estudou primeiramente filologia clássica em Tübingen e Giessen, passando a dedicar-se ao ensino. Não via os índios como selvagens, mas sempre como homens de sensibilidade, dando especial atenção à situação da mulher e das crianças.
No campo da etnologia, cumpre citar a sua participação, entre 1898 e 1900, da segunda Expedição ao Xingú de Hermann Meyer, viagem essa que atingiu o Ronuro, um afluente do Xingu. Após a viagem, retornou ao ensino no ginásio de Offenbach, escreveu alguns artigos para o Globus e um trabalho maior sobre o animismo entre os indios sul-americanos. Este estudo levou o fundador e diretor do Museu de Etnologia de Berlin, Bastian, a convidá-lo a trabalhar honorificamente. Lá atuou com americanistas de renome, tais como Karl von den Steinen, Eduard Seiler e Paul Ehrenreich. Dada a sua formação filológica, pode fazer um trabalho de vulto a respeito dos Guaikurus, doutorando-se em Würzburg, em 1902.
Em 1903, Theodor Koch-Grünberg realizou os preparativos para uma viagem própria, efetuada com meios do Museu de Etnologia de Berlim. Essa viagem levou-o ao noroeste do Brasil, ao Amazonas e Rio Negro, alcançando o território do Caiary-Uaupés; passando pelo Apaporis e Japurá, retornou em maio de 1905 a Manaus. Koch-Grünberg teve a felicidade de realizar observações em grupos que conservavam ainda costumes consuetudinários; entretanto, não é verdadeira a afirmação de que foi o primeiro pesquisador a ver as danças de máscaras na América do Sul e trazer vestimentas e máscaras de entrecasca de árvore para a Europa.
Registrou quarenta dialetos, procurando penetrar através da língua e da arte na vida psíquica dos índios, tomando parte também em festas com danças e cerimônias fúnebres.
No Museu de Berlim, trabalhou com o material coletado, publicando estudos tais como "Início da Arte na Selva" (1905), "Desenhos sul-americanos em rochas" (1907); "Dois anos entre os Indios" (1909) e vários artigos e trabalhos linguísticos. Em 1909, Koch-Grünberg mudou-se para Freigurg i.Br. como Docente de Etnologia na Universidade, sendo a sua aula inaugural a respeito do tema "Máscaras e danças com máscaras entre os povos naturais".
Em 1911, retornou à América do Sul, dirigindo-se ao Norte do Brasil e à Venezuela. De Manaus subiu o Rio Negro e o Rio Branco. à estadia agradável entre os Taulipáng na região do Roroíma seguiu-se uma viagem difícil pelo Uraricoera, com permanência entre os Yekuaná e uma tentativa frustrada de chegar às cabeceiras do Orinoko para, finalmente, atingir esse rio pelo Ventuari e retornar pelo Casiquiare. O histórico dessa viagem, publicado sob o título "No Roroíma: Entre os meus amigos índios da rocha rosada",1 oferece várias observações de alto interesse musicológico.
Em Boa Vista, após constatar a difícil situação política local devido à rivalidade entre "clericais" e "mações", descreveu um baile na casa de um cidadão influente do local, com as seguintes palavras, o que deixa transparecer o pouco fascínio que exercia a vida da sociedade não-indígena dos núcleos urbanos do Brasil em Koch-Grünberg, que nelas sentia falta de originalidade:
"O baile é uma história bastante maçante, como todo o resto. Nada original. Danças européias: valsas, mazurcas, quadrilhas, como entre nós. As moças, em parte bastante bonitas, em todos os matizes de cor de pele, em geral vestidas com roupas leves e claras, os homens com ternos escuros, confecção de massa de Manaus. Orquestra: violão, flauta, gramofone. [...] A sala de dança é uma espécie de varanda e, sobre o muro, o pessoal de serviço indígena tudo observa como convidados de cêrca.... Dança lasciva, muito pó. Durante um intervalo de dança, uma cachorra deitou-se no meio da sala e amamentou a sua cria."
De importância para o trabalho de Koch-Grünberg foi a missão católica no Rio Branco, então a cargo da Ordem Beneditina, sobretudo através do seu contacto com dois monges, o P. Thomas, inglês, e o alemão P. Adalbert, de Lörrach, Baden, cuja missão tinha sede em Capella e estação missionária entre os índios no alto Surumú. Foi P. Adalbert que apresentou Koch-Grünberg ao administrador de São Marcos, José Franca das Neves, um amigo e protetor dos missionários e que deu todo o apoio necessário ao desenvolvimento das pesquisas.
O autor descreve a situação em São Marcos como "paradisíaca", como um verdadeiro centro dos índios da região; a casa estava sempre repleta de indios e reinava uma atmosfera divertida, sendo que o administrador dansava com eles o Paricherá, a dança principal dos Makuschis.
De São Marcos, Koch-Grünberg dirigiu-se para o Norte, juntamente com P. Adalbert, dois índios e um caboclo da missão do Surumú, que carregaram a sua aparelhagem, inclusive o fonógrafo e os cilindros fonográficos. Numa pequena aldeia Wapischána, receberam visita de indígenas das tribos Wapischána e Makuxi, já vestidos com "trapos", que vinham de uma casa onde se celebrava uma festa com danças; o mestiço Mello não se conteve e, sem permissão, foi participar na dança. Depois de uma hora, alcançaram uma casa Wapischána, de construção tradicional, onde se dançava o Parixerá ou, na pronúncia dos Wapischána, Parischára.
Koch-Grünberg dá importantes pormenores a respeito dessa dança, realizada em forma de um círculo meio-aberto, descrevendo a atmosfera da festa: "Em compasso quaternário, balançando os joelhos e batendo com o pé direito no chão, homens, mulheres e crianças procediam em círculo, com um canto monótono. A festa estava terminando. Os homens, na sua maioria, estavam já muito embriagados. Alguns velhos roncavam nas suas redes dentro da cabana semi-obscura. Deram-nos um kaschirí de mandioca forte, chamado payuá. [....] Também Mello estava de forte ressaca. Como as nossas bonitas carregadoras nos contaram, ele tinha dançado, cantado e bebido toda a noite, também vomitado, como acontece numa verdadeira quermesse".
Deve-se perguntar, com relação a essa informação, se esse vômito fora realmente provocado pela embriaguez ou se servia à obtenção de visões, fato talvez não percebido por Koch-Grünberg e que seria de relevância para estudos da prática e das concepções religiosas dos indígenas do Rio Branco.
Na aldeia Koimélemong, constituída na sua maioria por índios das tribos Makuxi e Taulipáng [antes de Koch-Grünberg denominados Yarikúna ou Arekuná], com alguns do grupo Wapischána, foram recebidos festivamente. Koch-Grünberg teve a oportunidade de alí constatar a influência da missão beneditina e transmitir à posteridade notícias a respeito da ação missionário-musical dos monges junto aos índios da região.
Ao redor do P. Adalbert reuniram-se meninos e meninas que, em parte tinham tido apenas breve contacto com a missão. Eles rezaram o Padre-Nosso em Makuxi e cantaram algumas canções de Natal com texto Makuxi. Th. Koch-Grünberg não deixou de ficar comovido em ouvir, "entre essa gente parda e nua, as velhas e lindas melodias cantadas por vozes límpidas de crianças: 'Stille Nacht, heilige Nacht', 'Am Weihnachtsbaum die Lichter brennen'."
P. Adalbert reunia os seus "fiéis" para as vésperas, dando o chefe, para isso, um sinal com a buzina trazida pelo pesquisador. Assim, esse testemunho de Koch-Grünberg indica que os monges beneditinos mantinham a prática das horas cantadas no seu trabalho missionário. A participação dos indígenas se fazia com cantos alemães traduzidos para a língua nativa. Apenas o sino era substituído por um outro instrumento sinalizador, no caso também de origem não-indígena. Para Koch-Grünberg, a missão era útil, se vista por um ponto de vista exclusivamente humanitário, pois ela protegia os índios contra os brancos e impedia, pelo menos por um curto espaço de tempo, que se tornassem bêbados com todas as doenças da civilização. Sob um ponto de vista cristão, porém, apesar de todas as canções religiosas e orações, os índios estariam ainda profundamente enraizados nas suas concepções tradicionais e apenas repetiam sem pensar. Essa repetição mecânica dizia respeito, certamente, ao canto das horas, sendo essas que passaram a estruturar mais ou menos rigidamente o quotidiano das aldeias sob a ação dos beneditinos.
Koch-Grünberg adquiriu, de índios da tribo Taulipáng proveniente de Surumú, uma flauta de osso de onça, usado pelos homens presos no cordão de cintura. Para essas trocas, o pesquisador tinha trazido, entre outros objetos, também pequenos sinos e campainhas de metal. Situava-se, assim, na longa tradição de oferecimento desses instrumentos musicais como brindes e objetos de troca no contacto com os índios.
De particular interesse é a pormenorizada descrição do procedimento de cura empregado por Katúra, então um dos mais conceituados "médicos" do povo Taulipáng. O procedimento diferia um pouco do observado no grupo Majonggóng:
"O feiticeiro entoa solenemente, em voz anasalada, em graves sons guturais, um canto monótono. Este canto se divide em estrofes, que começam com o grito selvagem 'y--------------------------------------', terminando com um longo 'o- -'. Durante todo o canto ele bate com um maço de folhas no chão, ao lado do doente. Ouve-se, a seguir, chiados e gemidos, sopros e o emitir selvagem de '--------------------------. Sons gargarejados: ele toma suco de tabaco. Sussurando, ele continua a ir e vir com o maço de folhas sobre o chão e deixa o som sumir levemente, como à distância. 'Agora ele sobe às alturas!' diz Pirokaí, que está acocorado ao meu lado. Um intervalo longo. A sua alma se soltou do corpo. Ela traz um Mauari, um espírito das montanhas, ou o espírito de um médico-feiticeiro morto, que, em seu lugar, passa a dirigir a cura. O espírito chega sob algumas palavras selvagemente articuladas. Ele traz o seu cão, uma onça. Ouve-se o seu rosno - E assim continua por mais de duas horas, com curtas interrupções. Os uivos do médico-feiticeiro se transformam gradualmente num canto uniforme, que dura até o fim. / Este canto rouco e gritado do feiticeiro, cortado pelo rumor dos trovões, é uma música noturna bem singular, que atua extraordinariamente sobre os nervos."
Essa descrição refere-se claramente a uma experiência mística, pois diz que a alma do cantor eleva-se, trazendo das alturas um "espírito" curador que é o que atua. Esse procedimento corresponde à tradição mística franciscana/antoniana, pois é, após a experiência da unio mystica nas alturas que a alma do místico retorna com os frutos espirituais salvíficos que vão ser de proveito na interação com o próximo e na cura das almas. Coloca-se, assim, a questão de uma possível influência remota de missões franciscanas na religiosidade e nas práticas medicinais dos indígenas dessa região.
De particular interesse etnomusicológico é o fato de Koch-Grünberg já ter utilizado de fonógrafo para a gravação de cantos indígenas. Para acostumá-los com um aparelho que podia reproduzir a voz humana e a música, trouxe rolos com gravações para exibí-las. Nessas apresentações, constatou que os índios muito apreciavam a audição de música européia. Assim, índios dos grupos Wapischána, Taulipáng e Makuxi tomaram contacto com peças populares e de operetas, tais como a canção "-bist meine süße, kleine Frau", da opereta "O Duque de Luxemburgo" de Franz Lehar e a canção "Am Bosporus", de Paul Lincke ("A - ja, was ist denn bloß mit der Rosa los"). Sobretudo essa última foi repetida várias vezes, a pedido, e logo as crianças já cantavam as melodias sem êrro, pronunciando estropiadamente o texto alemão.
O próprio cacique Pitá cooperou com Koch-Grünberg no trabalho de gravação, cantando, ainda que com o acompanhamento fraco de Pirokaí, as canções de danças da tradição Makuxi, ou seja, o Parixerá, o Tukúi, o Muruá e outras. Segundo as palavras do etnólogo, duas meninas cantaram com voz clara e sonora as ternas canções que acompanhavam o raspar da mandioca. Os textos eram simples e consistiam em frases curtas, que se repetiam. Também as melodias eram simples, formadas por repetições de configurações sonoras. Koch-Grünberg dá a tradução alemã do texto de uma canção freqüentemente ouvida. Após gravá-las, apresentava os cantos assim registrados aos próprios índios:
"Eu executei todos os cantos para um público numeroso e grato. Pessoas nuas e semi-nuas, em grande quantidade, se agruparam em pictórico semi-círculo à parede da grande ante-sala da minha cabana, e ouviram com atenção o canto do seu chefe, reproduzido pelo gramofone. Pitá ri satisfeito quando ele escuta a si próprio. Algumas mulheres, assustadas, tapam com as mãos a face ou a boca, outras postam as mãos como para rezar e são tão piedosas como a pouco no serviço divino do Padre. O médico-feiticeiro, chamado pelo chefe do grupo, não quis entretanto cantar à "máquina", perguntando desconfiado, por que Koch-Grünberg desejaria levar consigo a sua voz. Após ter-lhe prometido uma faca, o cantor concorda com a gravação, sob a condição, porém, desta ser feita de forma reservada e que o seus cantos não fossem demonstrados. Koch-Grünberg, que interpreta essa atitude como receio de perda da autoridade, descreve detalhadamente a gravação de três rolos, com três cantos que se sucedem, como numa cerimônia de cura. Quando Koch-Grünberg fez soar as gravações na presença de poucas pessoas, o feiticeiro, ao ouvir a sua voz, demonstrou na face o seu choque.
Koch-Grünberg também gravou um Majonggóng, que entoou canções de dança de sua aldeia natal. As melodias eram completamente diferentes das outras, mais ricas em tons, mais rápidas, selvagens e nervosas. Algumas se caracterizavam por uma repetição singular de dois tons, cantados com a boca fechada. Também os cantos de magia gravados diferiam muito dos do Taulipáng. Koch-Grünberg confessa ter ficado de tal modo impressionado com a primeira parte do canto, recitado rapidamente com voz monótona, que "o suor escorria-lhe por todos os poros".
Para o estudo da música no contexto missionário adquire interesse um fato singular registrado por Koch-Grünberg: na ausência do Padre, o cunhado do cacique, William (Wiyáng) Makuxi dirigia o serviço religioso da manhã e da noite, cantando e rezando com base numa cartilha inglesa. Embora o texto nada tivesse de espiritual, as frases em idioma estranho desempenhavam aqui uma função religiosa ("The cow gives us milk. Thank you, good cow").
A mais detalhada descrição de interesse etnomusicológico de Koch-Grünberg diz respeito a um outro Parixerá, realizado no Koimélemong, com a participação de outras aldeias. Iniciado pela manhã por um grupo Makuschi, recebe à tarde um longo cortejo de habitantes da "Maloko Bonita" do sudeste da serra Mairarí.
No dia seguinte, a pedido de Koch-Grünberg, que pretendia fotografar a cerimônia, a festa teve início já durante o dia; a narração é valiosa pelas elucidações a respeito do Tukúi.
"Uma infinita corrente de dansadores Parixerá, homens e mulheres, vem do lado oeste, da savana, sob o ruído surdo dos trompetes de madeira, certamente duzentos participantes. Um magnífico quadro! A seguir, dançam e cantam na praça da aldeia em grandiosa roda. No centro do círculo, homens e mulheres dançam o Tukúi, a dança dos colibrís. Nús até a tanga e pintados com motivos artísticos ou simplesmente com barro branco, também os cabelos, o que empresta a alguns uma aparência bem selvagem. De dois ou três, em parte segurando-se em baixo, procedem um atrás dos outros, com joelhos dobrados, batendo o pé direito. Os homens apitam estridentemente em um tubo pequeno, sempre o mesmo tom. Também nessa dança canta-se às vezes longos cantos épicos de numerosas estrofes, como no Parixerá."
Koch-Grünberg ressalva que as danças e os cantos de dança desses índios estavam estreitamente vinculadas com os mitos e as lendas. A chave para o entendimento dos textos das danças poderia ser encontrada nas lendas. Assim, o Parixerá se fundamentava num longo mito, no qual importante papel cabe a utensílios mágicos de caça e pesca, que um feiticeiro-médico recebera de animais e que, por fim, os perdera de novo para os animais, por culpa de parentes maus. O Parixerá seria por assim dizer a representação géstica dessa lenda; além do mais, o Parixerá eria a dança dos porcos e de todos os quadrúpedes. O Tukúi ou Tukíschi seria a dança de todos os pássaros e todos os peixes. A longa fila de dansantes, que entram na aldeia sob o rusnido surdo dos tubos de madeira representaria um bando de porcos-selvagens. Originalmente, segundo Koch-Grünberg, todas essas danças seriam instrumentos de magia a fim de se ter sucesso na caça e na pesca.
Com o registro de tal simbologia, Koch-Grünberg prestou um inestimável serviço para o estudo e interpretação das correspondentes danças. O curioso, porém, é que o pesquisador não percebeu as similaridades dessa linguagem de imagens com aquela do catolicismo popular. Também na simbologia da mística franciscana/antoniana, por exemplo, os animais, as aves e os peixes desempenham importante papel. Os animais, em especial os porco, como representação do homem carnal, ligado à matéria e à terra; os peixes, como símbolo da alma ativa daqueles que têm "corpo fechado", ou seja, que cerraram as portas dos sentidos e levam essa vida em contínua atividade, as aves como a alma daqueles que ascendem às alturas. Haveria aqui apenas uma coincidência de concepções e imagens ou expressões culturais já influenciadas pelo trabalho missionário franciscano no passado"
A participação ativa de Koch-Grünberg nas festas é demonstrada pelo fato de dar, de vez em quando, gritos jubilosos "à moda das quermesses" de seu país natal.
Realizou também gravações do canto Tukúi, se bem que já no fim da festa, quando os participantes estavam roucos e cansados. Koch-Grünberg documenta também uma outra significativa tradição dos índios de Roraima, de importância para os estudos referentes à influência missionária e à modificação cultural. A seu pedido, os índios apresentaram o "Arärúya" ou "Alälúya" segundo as suas diversas tradições: primeiramente Wapischána, depois Taulipáng e, por fim, o Makuxi. Koch-Grünberg salienta que esse gênero de dança e canto nada mais é do que uma expressão particular do canto do Aleluia.
Essa dança seria própria dos Taulipáng da montanha, sobretudo da região do Roroíma e seria uma reminiscência "indigenizada" da missão inglêsa que tinha atuado no passado entre essas tribos. Os participantes formavam um círculo fechado. De dois ou de três em três, em pares ou separados segundo o sexo, procediam de braço dado ou com a mão direita sobre o ombro esquerdo do parceiro, batendo com o pé direito no chão. Cantavam com texto indígena ou com texto inglês deturpado diferentes melodias e canções guerreiras em tempo de marcha rápida, possívelmente cantos religiosos inglêses. Às vezes, o dansarino-guia dava uma volta e ambas as metades da roda se movimentavam em confronto, por pouco tempo, uma para a frente, outra para trás, arremessando a parte superior do corpo para a frente e para trás. No final do canto permaneciam silenciosos por algum tempo, voltados para o centro do círculo, até que o guia entoasse um novo canto.
Koch-Grünberg salientou a má impressão que essas melodias lhe deram em comparação com os cantos "originais" desses índios, tais como Parixerá, Tukúi, etc. Deve-se observar, porém, que os indígenas já consideravam esse tipo de dança como parte integrante de sua cultura, e a descrição de Koch-Grünberg evidencia que a formação da dança e o proceder dos participantes coincidiam em grande parte com as das demais expressões coreográfico-musicais. O trabalho dos missionários inglêses do passado consistira, pelo que tudo indica, na utilização de danças indígenas no contexto festivo da expressão da alegria e do júbilo, daí a denominação de Aleluia. Essa hipótese parece ser mais plausível do que a de uma assimilação de cantos de Aleluia pelos indígenas que, depois de memorizados, tivessem substituído cantos tradicionais de suas danças. Em todo o caso, o Aleluia parece não ser uma expressão cultural isolada demonstrativa da interação entre missionários e indígenas. Ela é apenas a expressão mais evidente, inquestionável, e Koch-Grünberg parece ter aqui sucumbido à sua procura de originalidade no estabelecer uma distinção fundamental entre esse gênero manifestadamente de influência missionária e as demais danças.
Koch-Grünberg cita um instrumento que adquiriu de um grupo que vivia após a Serra do Banco: um bambu grosso, com penduricalhos de garras de veado na parte superior, sendo a abertura inferior fechada com uma espécie de couro de tambor. Era usado na dança Muruá pelo guia, que marcava o compasso com batidas no chão.
Outros dados a respeito da influência inglêsa oferece a descrição da música do grupo Taulipáng no Roroíma, na aldeia Kaualiánalemong: Um dia, o pesquisador acorda, de madrugada, ouvindo o canto que lhe soou como "Heil dir im Siegerkranz"; era, porém, uma tradução indigenizada de um hino religioso inglês baseado na melodia de "God save the King".
Entre esses resquícios de trabalho missionário inglês, Koch-Grünberg constatou mais uma vez o "Arärúya", que nessa aldeia já tinha substituído quase que inteiramente os antigos cantos e danças. Também aqui observou um Parixerá, salientando a música surda dos trompetes que acompanhavam a chegada dos dançarinos, o seu silenciar e o início do canto rítmico monótono. Também as crianças dançavamm, ornamentadas como os velhos. O próprio Koch-Grünberg tomou parte na dança, o que voi visto com agrado pelos índios; também tomou parte, dias depois, no Arärúya, que considerou sem caráter e lamentável distorção do Parixerá, considerando tudo como muito maçante. A importância que a música e a dança tiveram nesta viagem de Koch-Grünberg se manifesta nas anotações feitas na sua próxima visita à região, pouco antes de sua morte, em 15 de setembro 1924, quando lamentou a dizimação das populações indígenas pelas epidemias e pela influência de garimpeiros.
Desta viagem, o pesquisador elaborou vocabulários de 23 tribos, textos de cantos medicinais e de magia, lendas e mitos na lingua original e tradução, observações escritas e visuais sobre os costumes e usos, além de fonogramas de cantos e filmes de danças. Publicou uma obra em 5 volumes ("Do Roroíma ao Orinoko"), sendo-lhe concedido o título de Professor pela Universidade Freiburg.
Em 1915, nomeado diretor científico do Museu de Etnologia em Stuttgart, tornara-se responsável pelo departamento sul-americano. De 1903 a 1905 realizou pesquisas no território do Rio Negro e, de 1911 a 1913, outras viagens no Norte do Brasil e na Venezuela. Em 1924, foi despedido pela associação que mantinha o Museu de Stuttgart. O pesquisador americano Hamilton Rice tinha-o convidado a acompanhá-lo em uma nova viagem às cabeceiras do Orinoko. Essa expedição deveria ser dividida em duas companhias, partindo uma do Orinoko e outra pelo Uraricoera em direção à Serra Parima. Ele deveria dirigir a parte que ia pelo Uraricoera, a outra parte foi liderada por Rice, sua mulher e uma comissão médica da Universidade de Havard. Partiu no dia 6 de junho de 1924 de Hamburg; do dia 20 de agosto subiu o Rio Negro e o Rio Branco até Vista Alegre. Faleceu em Vista Alegre, no Rio Branco, de malária, no dia 8 de outubro de 1924.

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